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| Foto: Bruno Silva Coentral, Castanheira de Pera, Julho/2017 |
Passaram-se dois meses da tragédia e eu continuo sem saber o que dizer ou como o dizer, sabem? Está aqui tudo trancado e continua a pesar todo este cinzento à nossa volta - salvam-nos os fetos que já brotam do meio das cinzas. Para quem não sabe do que estou a falar, sou de Castanheira de Pera, por onde passou aquele incêndio infernal que tanto com ele levou. E eu tenho muita necessidade de falar nisto, mas não consigo! E não é à falta de me perguntarem se iria escrever sobre o mesmo... Mas o que querem que escreva ao certo? Eu queria saber o que dizer, juro!
Ainda na noite passada, sonhei que estava tudo a arder, é sonho recorrente nestes dois meses, e acordo, mais uma vez, com os gritos do meu pai ("Senhor Álvaro, venha molhar as coisas!") que continuam na minha cabeça e já são do incêndio do ano passado. Nada que se tenha comparado à tragédia que por aqui passou desta vez, mas foi a primeira vez que senti na pele o que era a iminência de perdermos as nossas coisas, a terrível adrenalina do pensamento "Eu posso morrer aqui". "Podemos todos morrer aqui", pensei muitas vezes, ainda não sabendo do triste destino de tantos outros que perderam a vida a escassos quilómetros de nós... E do destino daqueles que viram as suas coisas a serem devoradas pelas chamas, por aquele tornado de fogo que se aproximava com tanta força de nós e trazia atrás o cheiro do medo. E o cheiro continua cá. Eucaliptos. Eucaliptos queimados. Cinzas. Terra e cinza húmida, pelo fresco da noite.





